Filme não se assiste apenas. Pode causar riso,
espanto, alegria e até algo mais. Quando é dramático, é impossível não sentir.
Em se tratando de filmes clássicos, A Cor Púrpura tem muito para emocionar e
fazer pensar. O filme de 1985, "A Cor Púrpura" ("The Color Purple") é um clássico, mas toda vez que reprisado,
vem à tona o seu poder de impressionar por sua história de indecifrável
comoção. Nos mostra os vários contextos nos quais está inserida a sociedade
americana do início do século passado, nos âmbitos da cultura, comportamento e
política, além de nos levar a náusea, ao confrontar-se com a mesquinharia
humana e preconceitos, os quais estavam incutidos no meio social da época. Faz
uma abordagem dramática sobre a discriminação racial e a sexualidade, e sobre a
dificuldade dos excluídos em viver nesse meio.
O roteiro é baseado na obra homônima de Alice Walker, escritora
estadunidense, que ganhou o Prémio
Pulitzer, eternizando o legado para literatura. Recebem esse prêmio
as personalidades que realizam trabalhos de excelência na área da literatura,
do jornalismo e da música. A partir disso, se destacou no mundo a história das
duas irmãs separadas, e se consagrou definitivamente quando virou roteiro
adaptado para o cinema. Além do livro, publicado em 1982, a autora tem dezenas
de outros romances de sucesso na literatura. Além desses aspectos que causam indignação ao
assistirmos, somada a uma carga tão profunda de desumanidade e perseguição
racial pela elite dominadora americana, além de um roteiro com nível de
descrição de sentimentos e atuação maestrina do elenco, a direção também se
destaca com o fabuloso cuidado em transmitir emoção em todos os ângulos. O
filme consegue ser ainda mais fascinante em nos mostrar contrapontos, pelos
quais podemos fazer ligações com a comédia e o drama.
Quem vê
Whoopi Goldberg atuando em papeis cômicos, como a espirituosa "Oda Mae Brown",
que ganhava a vida aplicando golpes e do charlatanismo em, "Ghost" ("Do Outro Lado
da Vida"), ou ainda interpretando a personagem "Irmã Mary Clarence", em "Sister Act" ("Mudança de Hábito"), talvez nem imagine que o filme com uma carga tão forte de
drama, "A Cor Púrpura", tenha sido estrelado pela atriz no início de sua carreira
nos cinemas, na pele da personagem principal, "Celie". É encantador entender que
a personagem encontra o caminho para se redescobrir através de "Shug Avery", uma
cantora de Blues, interpretada pela atriz Margaret Avery. A primeira vista
seria talvez encarada como um desamor na vida de "Celie", mas a amizade e a
cumplicidade despertada entre as duas abre novas perspectivas e descobertas na
vida de ambas.
Outro contraponto é referente à direção do longa. O
diretor de filmes como, "Indiana Jones", "E.T.- O Extra-Terrestre" e "Jurassic Park" – todos
clássicos de ficção produzidos para a telona – encantaram milhões de
espectadores em todo o mundo, com seus efeitos especiais de encher os olhos. O
que talvez a plateia voraz – consumista de produções como essas – e até mesmo
fãs do diretor e de suas produções não tenham atentado é para esse outra
faceta, ou até mesmo não reconheçam a grandeza e a proeza do maestro que
orquestrou também o clássico dramático, que encantou o mundo em meados da
década de 1980. Steven Spielberg é
também ‘o mestre’ em fazer de grandes histórias dramáticas, obras que marcam a
história da sétima arte, a exemplo é "A Lista de Schindler", com duas indicações ao Oscar. A
Cor Púrpura teve no ano de 1986, 11 indicações a Estatueta dourada, nas
categorias Melhor Atriz Principal, para Whoopi Goldberg; duas indicações de
Melhor Atriz Coadjuvante, para Margaret Avery e Oprah Winfrey; Melhor Roteiro
Adaptado; Figurino; Fotografia; direção de Arte; Maquiagem; Trilha sonora e
Melhor canção Original, com o sucesso "Miss Celie’s
Blues". Porém, o prêmio mais expressivo arrematado pelo longa foi
o Globo de Ouro (Golden Globe Awards), coroando Whoopi Goldberg como melhor atriz.
Outro grande nome que brilhou interpretando Sofia,
fez da personagem símbolo da batalha contra a injustiça racial. Do tipo que não
leva desaforo para casa, Sofia é a típica mulher forte que faz exercer seu
direito na marra. Porém, reflexo disso e da opressão que os negros e pobres
sofriam, surge daí os contratempos que a vida revela, levando-a para um destino
de amarguras. O temperamento forte e a insatisfação com as injustiças a fez
refém da crueldade, disfarçada de lei soberana contra as injúrias aos cidadãos
de bem. Vê-se agora tendo que se sujeitar a desfazer-se do lar e da família
para viver num inferno, sem expressão e aparência de alegria, apenas de
sofrimento. Hoje, o brilho da alma forte – em duros anos de dor, perde toda a
vivacidade. A extrema fragilidade é o que aparenta, ao passo que surgem os
primeiros cabelos brancos. Transparece agora apenas o medo e a desesperança.
O filme tem um elenco extraordinário, e se não veio
estatueta dourada, a película conseguiu um feito estupendo. Reservou duas
indicações para atrizes coadjuvantes. E essa é outra história a parte que o
filme traz. Hoje conhecida pela grande popularidade como apresentadora de TV e
empresária, além de vencedora de vários prêmios Emmy, com o talk-show de maior
audiência da história, Oprah Winfrey, que encanta
em Selma,
pela atuação como a ativista Annie Lee Cooper, tem sua
história marcada de forma estrondosa pelo personagem Sofia.
A Cor Púrpura não marca apenas por ser uma bela
história ou que profundamente nos faz refletir. Pode despertar em nós o forte
repúdio as ações desumanas, a aversão à crueldade. Tem o poder de adentrarmos
em sentimentos que, ao assistir, desperta até que meio involuntariamente. A
Película não se vê apenas, se sente, faz transparecer a fragilidade, a maldade
e a mesquinhez humana, ali, na alma. Analisamos e redirecionamos nosso olhar
para a beleza da obra e concluímos: nos faz pensar, nos emociona e nos alerta
para sermos menos seres e mais humanos. Em 2015 se completa 30 anos desse feito
na sétima arte, a primeira exibição nas telonas. Uma ótima homenagem é
assistir. Veja e sinta tudo isso! Se já assistiu, relembre e com outro olhar.
Fazemos outras descobertas quando apreciamos uma obra por outros aspectos. Se
deixe levar, ouse sentir!
Fonte:
Site jornalggn.com.br/




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