Mitologia Negra: João Cândido, o "Almirante Negro" (1880/1969)

Gaúcho de Encruzilhada do Sul, João Cândido Felisberto liderou uma das ações mais audaciosas e corajosas, contra a injustiça, já realizadas neste país, a "Revolta da Chibata". Filho de ex escravos, João alistou se na Marinha do Brasil em 1895, num tempo em que os aprendizes de marinheiro eram recrutados pela polícia, ele recebeu recomendação de um amigo da família, Capitão de Fragata Alexandrino de Alencar. Nos seus 15 anos na marinha viajou pelo Brasil e pelo mundo, no início como aprendiz, mas sua facilidade para assimilar e inteligência o fizeram ser admirado pelos colegas e alvo de vários elogios dos superiores, pelo seu bom comportamento e habilidades, além de ser instrutor de marinheiros mais novos e até mesmo de oficiais em começo de carreira. Durante suas viagens, uma em particular o marcou, à Rússia em 1905, onde tomou conhecimento de um movimento realizado por marinheiros russos que reivindicavam melhores condições de trabalho e alimentação, situação semelhante a dos marinheiros brasileiros, porém a situação desses últimos tinha um agravante: eram punidos com castigos físicos, um particularmente afetava diretamente o contingente, formado na sua grande maioria por negros e mulatos...o uso da chibata! Apesar desta prática ter sido abolida no regime republicano, pelo Marechal Deodoro da Fonseca, ainda era usada na Marinha a critério dos oficiais comandantes, o que fazia dos navios um barril de pólvora flutuante! Cândido e outros marinheiros que voltavam de uma viagem a Europa, começaram a se organizar contra esse abuso, primeiramente de forma pacífica, chegaram até a ter uma audiência com o presidente Nilo Peçanha na presença do Ministro da Marinha, mas como não foram ouvidos e para piorar alguns oficiais abusavam do castigo, aconteceu o inevitável: a revolta.
Já haviam planos para tomar o encouraçado "Minas Gerias", navio de guerra que estava atracado a baia de Guanabara, Rio de Janeiro, então capital federal, mas em 22 de novembro de 1910, um marinheiro foi chibatado até desmaiar e mesmo depois de inconsciente as chicotadas não cessaram...era a "fagulha" que faltava para "incendiar" os ânimos dos revoltos, antecipando a ação.
O comandante e alguns outros oficiais e sargentos são executados pela tripulação revoltada, mas em seguida João Cândido assume o controle dos mais de 2.300 homens, controlando a raivosa tripulação, cessando as mortes e começa as negociações com o governo e comando. Além do Minas Gerais também são tomados mais 3 navios e ao comando de Cândido, os canhões são apontados para a capital da república e dado o ultimato para que o uso da chibata seja banido na Marinha do Brasil. Após o presidente Hermes da Fonseca prometer banir o uso da chibata e conceder anistia aos revoltos, no dia 27 de novembro eles se entregam, mas no dia 28, num ato de traição a própia palavra, o governo cria um decreto permitindo a expulsão dos mesmos. A partir deste momento João Cândido foi perseguido pela Marinha até o final da sua vida. No mês seguinte houve um motim realizado por fuzileiros navais, sem nenhuma ligação com a "Revolta da chibata", mas joão falsamente acusado de participar, foi preso num quartel do Exército e depois transferido para um calabouço na "Ilha das cobras", onde ficou confinado com mais 17 companheiros, dos quais 16 vieram a falecer por asfixia! depois foi transferido para o "Hospital dos alienados", uma espécie de hospício, considerado como louco. Depois de ter alta voltou a Ilha das cobras onde em 1912 foi solto, graça a ajuda do advogado Rábula Evaristo de Moraes que conseguiu sua absolvição, contratado pela "Ordem de Nossa Senhora do Rosário e dos Homens Pretos", da qual não cobrou um centavo. 
Já não bastasse a sua vida de dificuldades, de perseguições (em 1930 foi acusado novamente de subversão) e pobreza trabalhando na praça 15 do Rio como estivador, sua segunda esposa se suicidou, abalando mais ainda seu psicológico. Foram muitos os convites para se filiar a movimentos políticos, chegou a participar de alguns, mas mais tarde fixou residência no município de São João de Meriti, onde se converteu a Igreja Evangélica Metodista e aos 89 anos, morreu, pobre e esquecido no Hospital Getúlio vargas no Rios de Janeiro, de câncer. João teve 12 filhos, em 2006 faleceu a mais nova, Zeelândia, que durante a vida lutou para que a Marinha reconhecesse e reintegrasse o nome do pai as suas fileiras, pois ele saiu sem direito algum.Em 2008 o Governo da república concedeu anistia mas se recusou a reintegra seu nome a Marinha, alegando que não teria verbas para pagar a pensão que seus descendentes teriam direito. 
Monumento a João CÂndido, no Rio de Janeiro.

Foram inúmeras homenagens a João Cândido, como a canção gravada nos anos 70 por João Bosco e Elis Regina, "Mestre sala dos mares", onde no refrão dizia "Salve o Almirante negro", a censura militar exigiu que fosse mudado para "o navegante negro". Em 2005 seu nome foi inscrito no "livro dos heróis da pátria", que se encontra na Praça dos 3 poderes, em Brasília.
Nos Jardins do "Museu da república" palácio do Catete, foi inaugurado um monumento, uma estátua de corpo inteiro de João com um leme nas mãos, em 2008 ela foi transferida para  praça 15 de janeiro, no Rio, onde na ocasião houve uma cerimônia que contou com o Presidente da República, familiares de João Cândido e milhares de pessoas, mas a Marinha do Brasil se negou a participar....Há também um busto de João Cândido no Parque Marinha do Brasil em Porto Alegre.
Em 2010 o 1º petroleiro PROMEF (Pograma de Modernização e Expansão de Frota) produzido no Brasil foi batizado de "João Cândido".
Homenagens a parte, o que esse gaúcho nos deixou foi um legado de bravura e justiça, que fizeram dele o eterno "Almirante Negro"!

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