Mitologia Negra: Marvin Gaye (1939-1984)



Nascido como Marvin Pentz Gay Jr., em 2 de abril de 1939, ele mudou para sempre a cara da música negra. Dono de uma voz marcante, multi-instrumentista, compositor, enfim, um artista diferenciado pela sua sofisticação e visão vanguardista , com uma vida dividida entre a genialidade e a polêmica, o amor e o ódio. O amor pela música começou na igreja onde seu pai era pastor e aos 3 anos Marvin já cantava no coral e mais tarde começou a tocar instrumentos, ele achou na música um refúgio para a violência sofrida em casa, onde seu pai o espancava constantemente e o fez desenvolver uma relação de ódio com o mesmo que duraria até o final de sua vida. Na escola secundária ele se tornou baterista de uma banda e depois abandonou a escola para alistar-se na Força Aérea Americana, onde após um ato de indisciplina forjou uma doença mental e foi dispensado. Em 1957 começou a carreira de músico profissional ao lado do lendário guitarrista de Blues, Bo Diddley, depois foram contratados pelo grupo "The Mooglows", com o qual gravou um disco em 1959 e onde aprendeu e aprimorou suas técnicas musicais. Um tempo depois, durante um concerto da banda, foi apresentado a Berry Gord, presidente da lendária gravadora MOTOWN que contratou Marvin para ser baterista de estúdio, onde trabalhou com ícones da música negra como o então conhecido como "Little" Stevie Wonder, The Marvelettes, Martha e The Vandellas e Miracles e alguns grandes sucessos destes artistas. Acrescentou um "e" no seu sobrenome, mudando para  Gaye, dizem que para evitar rumores sobre sua sexualidade, cortar o vínculo com seu pai e também por influência do seu ídolo Sam Cooke, que tinha acrescentado um "e" no nome.
Começou a namorar a irmã de Berry, Anna Gordy, que convenceu o irmão a deixar Marvin gravar  como interprete, já que Berry tinha receio de assinar um contrato com ele, pois demostrava ser insubordinado. Gaye já demostrava seu estilo sofisticado e impressionava por sua facilidade de assimilação na parte de desenvolvimento e técnicas artísticas. Em 1961 a Motown lança seu primeiro disco solo "The Soulful Mods of Marvin Gaye", 2º lp da gravadora (o 1º foi dos Miracles). Elogiado pela crítica pela sofisticação de suas harmonias e arranjos, foi um fracasso comercial...o grande público ainda não estava preparado para seu som. Após discutir algumas vezes com Berry Gord, ele concordou em gravar canções mais "comerciais", mas não encontrava o sucesso, o que, ironicamente, suas composições na voz de outros artistas da Motown conseguiam. Em 1963 começou a achar o caminho do sucesso, mas entrava em um grande conflito pessoal, queria cantar baladas sofisticadas, ao contrário do que lhe exigia a gravadora, que queria músicas mais dançantes e "comerciais".
Tammi Terell & Marvin

 Seus duetos com artistas do sexo feminino se tornaram lendários, mas nos meados dos anos 60 conheceu sua "cara metade musical": Tammi Terrell. O disco da dupla, lançado em 1967, "United" teve vários e inesquecíveis sucessos, como "Ain't no mountain high enough", "Your precious love" e "If this wolrd were mine". O entrosamento musical entre os dois logo gerou boatos de um possível romance. Durante um show, Tammi desmaiou nos braços dele e foi levada as pressas ao hospital onde posteriormente foi diagnosticado um tumor cerebral! Marvin ficou arrasado. Em 1968 foi lançado o 2º lp da dupla, "You all I need" e posteriormente "Easy" que seria o 3º, e foi finalizado com mixagens de gravações antigas de Terrell e alguns vocias de Valerie Simpsom (da dupla Asford & Simpsom). Marvin entrou em profunda depressão e nem o sucesso de sua gravação "I heard it through the grapevine", que foi o single mais vendido na história da gravadora, o animou. Em março de 1970 Tammi faleceu, dizem que no funeral Marvin conversava com o corpo, como se esperasse uma resposta...ele cogitou até abandonar a carreira e ficou em isolamento por um período.

 Mas ainda em 1970 ele entra em estúdio, para começar a trabalhar em um disco, que mal sabia ele, se tornaria um divisor das águas da música negra e um dos mais importantes da história da música!
"What's going on" (1971)
Gaye tomou as rédeas da produção, se recusou a aceitar qualquer palpite ou imposição da gravadora, foi um álbum introspectivo, abordando temas de cunho social, como a pobreza e as drogas (a 1ª ele conheceu muito bem e da 2ª ele viria a se tornar refém), também criticava a guerra do Vietnã (ficou afetado pelas cartas que o irmão lhe enviava do campo de batalha), mas também falava de amor, só que de uma forma mais sensual, o que não era comum na época, além de já ter uma consciência ecológica, como podemos perceber em "Mercy, mercy me"...é, ele estava a frente de seu tempo, por isso queria perguntar ao mundo: "What's going on?"(título do disco, que significa "O que está acontecendo"). Berry Gord relutava em lançar o álbum, com medo das reações da sociedade e público em relação aos temas considerados polêmicos para época, o que levou Gaye a cogitar sair da gravadora. Mas em janeiro de 1971 ele cede e lança "What's going on". Resultado: ele permanece entre os primeiros lugares das paradas durante mais de 1 ano consecutivo e se torna o álbum mais vendido pela gravadora até então. Depois disso a música nunca mais foi a mesma, podemos classificar a música negra em antes e depois de "What's going on", a revista Rolling Stones divulgou uma lista em 2003 dos 500 discos mais importantes da história, ele estava no 6º lugar!

Com o sucesso de "What's going on", seu contrato foi renegociado por Us$ 1 milhão, o que fez dele o artista negro mais bem pago da história da música até então, além de ter total liberdade artística, o que ajudou outros artistas, entre eles Stevie Wonder, a terem a mesma liberdade criativa. Também recebeu convite para escrever a trilha sonora do filme "Trouble man", o que fez com muita competência. Em 1973 lança "Let's get it on", que supera "What's going on"  em vendas, além da canção título bater o seu própio recorde, devido ao grande sucesso nas paradas. No mesmo ano finaliza seu último trabalho de duetos, que tinha começado no ano anterior, ao lado da diva Diana Ross ("Diana & Marvin"), de onde saem sucessos inesquecíveis, como "My mistake", "Stop, look & listen" e "You are everything". 

"Diana & Marvin" (1973)

Em 1975 entra em processo de divórcio de Anna Gordy, o que retarda um novo trabalho solo. Em 1977 lança o single "Got to give up" eo disco ao vivo "Live at the London Palladium", ambos tendo grande exito comercial. O desgastante processo judicial de divórcio influência seu próximo trabalho, "Here my dear", um fracasso de vendas. Em 1979 casa-se novamente com Janis Hunter, que seria a mãe de seus 2 filhas, Frankie e Nona.
Depois de alguns fracassos, embalados por seu vício em drogas, o que lhe fez morar num furgão no Havai e até mesmo chegar atrasado a seu própio show  em Londres, quando todo o público já tinha ido embora, vai viver na Bélgica por um tempo, isolado de tudo e negocia sua saída da Motown. Em 1981 assina com a Columbia Records, onde em 1982 lança o que seria seu último trabalho em vida:"Midnight love", de onde surge um dos seus maiores sucessos, "Sexual healing", que lhe rende seus 2 primeiros Grammys. Em 1983 é convidado a cantar o hino nacional dos EUA num célebre jogo da NBA e no mesmo ano participa do especial de 25 anos da Motown, além de sair em turnê. 


"Midnight Love" (1982)
Ao término da turnê, já com a saúde debilitada, depressão profunda e totalmente transtornado, achando que estava sendo perseguido, isolou se na casa dos pais, o que foi seu 1º erro...
Ele ameaçou cometer suicídio algumas vezes e em meio as suas paranóias, deu uma arma ao pai, para que o mesmo se defendesse de um suposto ataque, seu 2º erro...lembram que falei que a relação de ódio com o pai duraria até o final da vida? Pois bem, no dia 1º de abril de 1984, as vésperas de completar 45 anos, após inúmeras brigas com o pai, o mesmo lhe disfere um tiro fatal, pondo um fim a sua genial e polêmica vida, o transformando em um mito!

Seu pai foi condenado e cumpriu apenas 6 anos, pos devido a um tumor cerebral foi liberto e morreu de pneumonia em um asilo em 1998. Vieram alguns discos póstumos e em 1987 foi colocado no "Rock and Roll Hall of Fame" e em 1990 ganhou uma estrela na "Calçada da Fama" em Hollywood, onde inclusive já se cogita que sua vida vire um filme! Até hoje seu legado serve de inspiração para novas gerações do R&B e Soul, e me atrevo a dizer que a música negra deveria ser dividida em:
A.M.G. ("Antes de Marvin Gaye") e
D.M.G. ("Depoiss de Marvin Gaye").


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